Brasil: O presente e o futuro das jornadas de junho...Henrique Costa
A melhoria do transporte público está na pauta e está muito mais
difundida a ideia de que ele deve ser priorizado em detrimento do
transporte individual. Resta saber como se comportará o subproletariado,
que se não participou de maneira relevante nos protestos, o apoiou.
Este é o fiel da balança para o próximo período.
Em junho deste ano, a presidente Dilma Rousseff veio duas vezes a
público, alertada por duas semanas de mobilizações intensas e históricas
no país, para reiterar a posição oficial do governo federal e apontar
medidas. Muita água passou por debaixo da ponte desde então, entre as
propostas de constituinte exclusiva para uma reforma política –
eleitoral, mais especificamente –, e o plebiscito sobre o mesmo tema,
que agoniza ante a indisposição do Congresso Nacional. Em seus
discursos, tentou acenar para dois setores distintos da sociedade
brasileira. Um, a classe média tradicional que surgiu com força nas
manifestações; outro, as classes baixas, maiores beneficiárias das
políticas implementadas pelo seu governo e pelo ex-presidente Lula.
Para
o primeiro, caracterizado pela mídia por atos ordeiros e “contra tudo o
que está aí”, as promessas de reforma política e tolerância zero com os
“arruaceiros”. Para o segundo, a melhora nos serviços públicos. A
postura do governo petista, adornado pelos indispensáveis marqueteiros,
busca estar afinado com a mídia e, ao mesmo tempo, com sua principal
base eleitoral. A condenação dos “baderneiros” e “vândalos” serve para
ambos os propósitos. Sobre os casos de violência policial extrema vistos
nas últimas semanas, Dilma, militante de grupos armados durante a
ditadura militar e torturada por seus agentes, nada tinha a dizer.
É
preciso olhar para a totalidade das manifestações, assim como da
conjuntura do país. É da natureza do comportamento de massas que ele
seja incontrolável, quando muitos, inclusive oportunistas, se põem lado a
lado. Faz parte, contudo, da disputa pela narrativa do momento.
Na
manifestação da segunda-feira, 17 de junho, enquanto jovens de
periferia se atracavam com outros de classe média na estação Berrini,
estes condenavam os primeiros por incitarem a passagem gratuita pelas
catracas, o “pula catraca”. Curiosamente, em um movimento que nasceu
tendo como uma de suas bandeiras a tarifa zero do Movimento Passe Livre
(MPL), a desobediência civil era rechaçada pelos demais aos gritos de
“sem vandalismo”.
Perspectivas diferentes moveram a diversidade
presente nas manifestações. Menos até em relação às pautas e mais em
relação aos métodos. Pesquisa do Datafolha durante os protestos indicou
que a maioria dos participantes identificava questões relacionadas à
qualidade dos transportes públicos como o principal motivação para a
participação. Também a corrupção era citada, o que, por si só, não pode
ser desconsiderado, mas sim avaliado dentro do funcionamento atual das
instituições, longe da normalidade desejada pela maioria.
As
ocorrências da quinta-feira, 20 de junho, que resultaram na expulsão dos
partidos políticos da manifestação, levaram a análises precipitadas,
sobretudo por parte do Partido dos Trabalhadores. Vendo-se como um dos
principais alvos dos protestos – o que seria até natural, já que comanda
o país – a cúpula do PT primeiro se estarreceu, depois tentou retomar
de forma primária a vanguarda do processo e, quando rechaçado, procurou
desqualificar o movimento. De “movimento de classe média” ao fascismo,
alguns de seus ideólogos sugeriram um golpe contra o “legado” de Lula e
Dilma.
Não se trata aqui de discutir acertos e erros dos governos
petistas. Resumindo, conformou-se no país um processo de mudança
estrutural lento, voltado especialmente para as classes baixas, como
analisou o cientista político André Singer. Mudança gradual com
manutenção da ordem, o que implica em concessões aos setores
conservadores (ruralistas, evangélicos). Em seus pronunciamentos, Dilma
renovou suas expectativas quanto aos “pactos”, sustentáculo da
conciliação proposta desde Lula.
Parece haver uma grande confusão
aqui. Se a pauta de alguns meios de comunicação é conservadora,
atribuir esse conteúdo às manifestações é alienar ainda mais o partido
de uma base que, em parte, já foi sua. Pesquisa feita pelo Instituto
Innovare com manifestantes em Belo Horizonte no dia 22 de junho, revelou
que 40% deles votou em Dilma nas últimas eleições. Apesar da
escolaridade alta, metade deles tem renda familiar abaixo de 5 salários
mínimos. Quem se beneficiará deste cenário ainda não é aposta certeira,
mas no “recorte” de classe, Marina Silva se destaca entre as camadas
médias. Não por acaso, ela é a única presidenciável a subir
ininterruptamente em intenções de voto desde então.
É evidente
que, em manifestações do porte que vimos, a maioria dos participantes
nunca tenha tido contato com princípios da política triviais para
militantes e acadêmicos. De acordo com pesquisa Ibope divulgada no dia
23, 46% deles nunca tinham ido às ruas. São pautas difusas que, por
influência da classe média tradicional e da mídia, acabaram canalizadas
para conteúdos morais. Estigmatizá-los, no entanto, é um erro. Matérias
na imprensa demonstraram que militantes de extrema-direita organizados
agiam com o intuito deliberado de agredir partidários da esquerda. Na
sequência, eram eles quem puxavam as palavras de ordem para uma massa
que, com razão, está cansada da política tradicional.
O filósofo
Paulo Arantes, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, acredita
que uma parte dessa mobilização talvez tenha a ver com “pessoas
arrastadas pelo novo assalariamento vulnerável, que estão ralando e
padecendo e, no entanto, engajadas em duas frentes, a do trabalho que
ninguém gosta de ver estropiado por chefias despóticas e avaliações
espúrias e a do senso do vínculo social a ser reconquistado que decorre
dessas engrenagens desenhadas para infligir sofrimento.”
Há
algumas semanas, a professora Maria Sylvia Carvalho Franco publicou na
Folha de S. Paulo artigo de grande valia em que afirma que os atuais
movimentos de protesto que acontecem no Brasil desde junho não se devem
apenas a demandas econômicas, sociais ou políticas, mas que tem origem
na própria história de exploração e na “ampla rede de controle social
arbitrário e economia espoliativa”, impressa na gênese da sociedade
brasileira. A filosofa se referia a presidente Dilma e a sua confiança
no “papel histórico da burguesia nacional”.
Neste momento, parece
que a concretização do sonho dilmista de uma elite desenvolvimentista
se juntou à aspiração lulista – a mudança gradual através do pacto
conservador talvez tenha subido no telhado, ou encontrado seu destino. O
“passo além” desenhado por Dilma através dos juros subsidiados do BNDES
vão se transformando em pulo no abismo das empresas “X”. A dourada
realização do Brasil Grande, do homem mais rico do mundo, da melhor Copa
de todos os tempos, dos “players” globais financiados pelo Estado para
constituírem oligopólios que nem mesmo se transformaram em melhores
serviços para a população.
Enquanto isso, ideólogos quebram a
cabeça para desvendar a arapuca que se tornou a conjuntura do Brasil,
todos há pouco muito crentes de que o subproletariado garantiria vida
eterna ao petismo no poder. É preciso achar um culpado. Curiosamente, o
próprio ex-presidente Lula admitiu, em seu primeiro artigo mensal para o
New York Times, que o PT se afastou dos movimentos sociais, que a
política precisa ser reformada, disse, corretamente, mas de algum lugar
próximo a marte.
Seguidores do ex-presidente, como vimos,
desqualificaram os protestos no começo, recuaram no meio, e voltaram ao
início quando o Rio de Janeiro dos aliados Sérgio Cabral e Eduardo Paes
ardeu em chamas. Não nas favelas, como o BOPE nunca deixou de fazer, mas
no Leblon das novelas de Manoel Carlos. Alguns alegaram, inclusive que a
“baderna” é inveja com o padrão de vida da Zona Sul carioca. Usam a
desigualdade como arma. Certamente, os atos não teriam relação com
ostentações dignas do Império, como o casamento de R$ 3 milhões dos
herdeiros do oligopólio que controla o transporte público no Estado.
O
governador do Rio, Sérgio Cabral acusou seus adversários políticos de
“campanha antecipada”. Esqueceu-se o governador de que a sua própria
campanha não apenas foi antecipada, mas é permanente. Ou as suas
intimidades com empreiteiros – Cavendish e os guardanapos de Paris, os
jatinhos emprestados de Eike Batista –, as inacreditáveis licitações
forjadas para a concessão do estádio do Maracanã – Eike de novo – e mais
uma série de desmandos de seu governo não são um grande pacto pela
manutenção de seu próprio poder?
“Contra esses interesses
destrutivos da imensa riqueza nacional, ergue-se a massa dela
despojada”, afirmou Carvalho Franco na Folha.
Na quarta-feira, 17
de julho, depois de mais uma rodada de protestos incansáveis em frente à
sua casa, um belo apartamento no metro quadrado mais caro do país,
Cabral disse que os atos de vandalismo no Rio são uma “afronta” ao
Estado Democrático de Direito. Em uma cidade extremamente desigual como o
Rio de Janeiro, ele preferiu convocar seu secretário de segurança e o
comandante da PM para dar explicações em seu lugar.
Já os
secretários de transportes, educação e saúde, ninguém sabe. Não entende
Cabral, assim como seu colegas políticos tradicionais, que depois do que
se fez por Copas do Mundo, visita do papa Francisco e outras soberbas,
não é mais possível alegar “falta de dinheiro” para os péssimos serviços
públicos que oferecem.
Como, desde o começo dos protestos, o
governador ou deu de ombros a exigência por transparência em seus
excessos, ou mandou sua Polícia Militar reprimir sadicamente a liberdade
de reunião e manifestação da população, assim como fez Alckmin em São
Paulo, caberia perguntar se estaria Cabral realmente ouvindo o que dizem
as ruas: que ele mesmo, talvez, seja uma afronta ao Estado Democrático.
Nada que sua repentina humildade despertada pela presença do “papa dos
pobres” não tentasse dissimular. Mas parece tarde para Cabral.
Entre
a indignação com as vitrines quebradas do Leblon e a obtusidade quanto à
chacina da favela da Maré não houve mediação. A primeira vale mais do
que a segunda, e isso é indiscutível pois os fatos narrados na mídia
falam por si. Não houve reunião de emergência da cúpula de segurança,
não houve choro de mães na TV, não houve falas inflamadas de colunistas e
nem classificações proporcionais à vândalos e baderneiros. Não houve
acusações de agressão ao Estado Democrático de Direito.
A análise
destes fatos demonstram sem muita necessidade de sofisticação
intelectual que, poucas vezes na história do Brasil, o preconceito
social ficou tão evidente e foi disseminado com tanta falta de discrição
quanto o oferecido naquela semana. Vitrines que pertencem a ricos ou à
classe média valem mais do que a vida de pobres. Sempre foi assim no
Brasil e as raízes históricas estão relatadas em uma centena de obras
acadêmicas e da literatura nacional.
A fala do colunista das
Organizações Globo, Merval Pereira, afirmando que “o que aconteceu no
Leblon é inaceitável na democracia” é, certamente, um símbolo retumbante
e difícil de colocar em pé de igualdade com outros exemplos de
hidrofobia explícita. Conceituar vandalismo talvez seja uma tarefa
difícil e polêmica. Tratar os acontecimentos recentes desta forma foi o
que fez a mídia no começo de junho, para depois ser atropelada pela
força das ruas. A destruição da sede da Rede Globo é, deste modo,
simbólica. Não havia o que roubar, não havia quem agredir. Bastava
passar o recado de que há insatisfação com a maneira com que a emissora
“clienteliza” e usa de seu poder econômico para criar narrativas de seu
interesse, pouco importa a tal verdade factual.
Mas a corda,
talvez, tenha finalmente estourado. A mobilização em torno do sumiço do
pedreiro Amarildo na favela da Rocinha mostra que, de junho para cá, a
consciência ultrapassou a medida convencional da luta de classes aceita
como natural no Brasil. A paz armada proporcionada pelas Unidades de
Polícia Pacificadora sofreu um abalo. Mesmo que as manifestações
motivadas pela provável execução de Amarildo pela PM sejam menores do
que se viu na “jornadas de junho”, também se distanciam da
caracterização feita por, entre outros, Wanderley Guilherme dos Santos,
que afirmou ver apenas “anomia niilista” no rescaldo de junho.
De
todo modo, não se sabe se a massa anticorrupção voltará as ruas. Mas o
saldo da politização, até agora, é positivo. A recorrente criminalização
dos protestos de rua pela mídia e pelos governos já não é mais favas
contadas. A melhoria do transporte público está na pauta e está muito
mais difundida a ideia de que ele deve ser priorizado em detrimento do
transporte individual. Resta saber como se comportará o subproletariado,
que se não participou de maneira relevante nos protestos, o apoiou.
Este é o fiel da balança para o próximo período.
* Henrique Costa é mestrando em ciência política na USP
Via:
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=22493
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